sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Pág. XXVII à XXVIII

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Após o seu mais longo suspiro, expeliu: – Clarissa, você não é nossa única filha. - “Nossa”¿

Ele disse “... nossa única filha. ”. “Nossa”, ele disse. Eu não era a única. Meu pai não era o único. Não só eu. Não só ele. Ela, ela também. Minha mãe. A indefesa, a inofensiva; ela também. Ela fazia parte de tudo. Tudo o que eu sabia foi apagado. Eu não tinha mais nada e nada mais era o mesmo. A partir de uma palavra, apenas cinco letras, nada mais era igual. Bem como ela, ela também. Primeira pessoa do plural: Nós. Nós; eu e mais alguém. “Nossa”, ele disse. Ele e mais alguém. Ela, ela também. De repente ninguém era mais alguém, erámos alguém mais um. Meu pai não era apenas ele, era ele mais ela. Os dois, na mesma sentença, eram a mesma coisa. E eu, definitivamente, havia sido duplicada. Aquela parte que se despediu de mim, ela foi embora para deixar seu posto vago para alguém. Meu mundo passou a ser ele e ela e eu e mais um.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Pág. XXIV à XXVII

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– Eu não tenho ideia do que você está pensando agora, mas o que você precisa saber é que existe uma outra pessoa. Existe outra pessoa nas nossas vidas. –
Minha mãe. Eu só pensei na minha mãe. Se era uma amante eu não era a traída, ou a mais traída. Não, não podia existir alguém que o quisesse. Nem a gente queria. Não podia ser. Tentei, mas não dava mais para ficar desacordada. Eu acordei:
– Como é¿ O que você quer dizer com isso¿
– Não quero que você se assuste. E isso tudo talvez não seja tão grave, também não tem que ser uma coisa ruim.
– Pai, do que é que você está falando¿
– Calma, a gente vai conversar, eu vou explicar.
– Eu não quero conversa, eu quero a verdade. Você vai me dizer agora o que isso quer dizer. Você não pode fazer isso comigo. Você tem a obrigação de me dizer agora o que está acontecendo.
– Por favor, espere um minuto...
– Não, não, não, não. - Eu me levantei, erguida pela força do desespero, munida com minhas palavras embaralhadas apertadas sob meus dedos, esmagadas contra a palma da minha mão. – Eu não tenho que esperar mais um segundo. Nem que eu quisesse, eu não conseguiria mais. Você vai ter que me falar tudo e vai fazer isso agora.
–  Clarissa, eu.... Eu não sei mais o que dizer, eu já disse tudo o que eu sou capaz de dizer.
– Não, você não disse! – Explodiu minha mãe, em prantos. Meu pai engoliu, em espanto. Ele travou.
Ele travou o corpo. Meio cambaleando, meio reticente, ele fez o esforço de racionalizar o seu estado no tempo e espaço. No seu rosto, eu vi, os seus nós se afrouxavam, mas ele não os permitia desatar. Nós três pairamos no silêncio por um instante. Ela o rompeu:

– César! – Chamou por ele, numa vontade descontrolada de exterminar tudo de uma vez. 
Não adiantava. Ou aquela não era a hora dele. Se era, ele não deixaria que fosse. Meu pai precisou de mais alguns segundos para conseguir desfazer completamente o personagem que ancorou em si por tantos anos. Por tanto tempo ele foi o tirano, nos submetendo a sua inquisição sufocante. Antes éramos nós sob os holofotes da sua sentença implacável. Tomar o nosso lugar não era simples. Eu entendi, ele queria adiar a sua redenção. Quanto a mim, eu não via a hora, mas não me preocupei em acelerar. Eu havia me duplicado, era como me sentia. Inexplicável, a não ser pela sensação de separação. Como duas partes. Eu estava alerta e dispersa. Um ânimo se remexia dentro de mim e meu corpo se embaraçava tamanha minha sede de sangue, de vingança. Mas a despeito da ira, minha mente não queria nada além de sumir no embaraço e flutuar. Duas partes de mim. Algo tipo um surto súbito de loucura, na hora mais inoportuna. Algo começou a mudar. Acho que uma das partes estava se despedindo de mim mesma, eu só não sabia qual. Uma delas segurava contra o peito o temor da grandiosidade da estupidez da vida adulta que borbulhava diante de seus olhos. Ela me tirou daquele lugar e me deixou observando a confusão ao meu redor. Eu vi pouco, mas vi o suficiente. Minha mãe se tremia por inteiro, mas não hesitava. Já meu pai se mantinha frio, congelado no tempo, insistindo em estampar no rosto o que havia sobrado do seu personagem ditador. Não era escárnio dele, era medo. Para delírio de todos, foi a certeza da minha mãe – coisa que eu jamais havia presenciado na vida –, que não deu brechas. Ele bem que não queria, mas a queda já estava à vista. A hora chegou e ele se desfez.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Pág. XXI à XXIV

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Para me proteger de mim mesma, eu tomei a decisão deixar o meu sensor de epifanias no silencioso, o que significa que ele estava sempre calado, porém sempre em ação. Quando entendi que aquilo não se tratava de um mero faniquito e que havia um risco de algo gravíssimo acontecer comigo eu cedi ao desespero. Foi bem rápido, só não tão rápido quanto o pensamento. Puxei o ar bem fundo e com ele veio uma palavra: Adotada. Ela bateu na trave. Puxei o ar mais uma vez e outra palavra veio junto. “Bastarda”, eu vi escrito na minha frente. Passou raspando, mas errei. Normal. Como sempre, meus palpites equivocados foram o mais perto que cheguei de uma revelação. E eu dou graças a Deus por isso. Assim, eles só me provaram mais uma vez que as epifanias não são para mim. Eu errei em ceder, mas acho que é o que acontece com qualquer pessoa em reabilitação. Você está sempre à beira da recaída. Mas eu me recompus. Segui em frente.
Mais calma, eu lembrei a mim mesma do que eu tinha compreendido meses antes: adaptar a minha necessidade a minha realidade. Ao invés de crer na improvável conquista da revelação instantânea, eu lembrei do que eu aprendi sozinha. A dedução era mais eficaz para mim; uma escolha sensata e efetivamente mais saudável. A propósito, foi assim que desmascarei meu pai, não foi? Através da investigação. Esta descoberta foi libertadoramente fantástica e fantasticamente libertadora.
O fato de meu pai ser um homem macho dramático dava a ele infinitas liberdades, e me machucava demais entender isso tão bem e tão só. Talvez essa não fosse apenas a minha primeira grande teoria, mas também a minha primeira maior dor. A teoria posso provar: tudo o que ele queria era estar isento de qualquer regra e absolvido de qualquer acusação. Aquele ritual idiota dele era mais uma forma dele controlar a gente e manipular a nossas cabeças.
Após anos de acusações mentirosas, ele teve a coragem de usar o mesmo ritual para nos contar a única verdade que ouvi dele na vida. Nosso parentesco estava assegurado. A nossa família, nem tanto. Para mim isso é, portanto, a prova de como minha teoria podia ser ao mesmo tempo minha primeira grande conquista e minha primeira grande decepção – pelo menos até aquele momento. Minha cabeça estava um aglomerado de palpites inúteis, raiva – é claro! –, uns bons quilos de poeira das minhas antigas decepções, um pouco de satisfação pelo sucesso da minha teoria, e a óbvia desorientação emocional e psicológica como resultado da mistura de todos os ingredientes anteriores. Mas aí, ele continuou a falar e eu tive que arrumar a bagunça para dar espaço ao caos que viria com a revelação que ele estava prestes a fazer.
Meus olhos se acenderam e o brilho era tão intenso que eu mal podia mantê-los abertos. Eu os segurava, os obrigava a continuarem alerta, mas as pálpebras se jogavam sobre eles repetidamente, permitindo apenas que o brilho escapasse vez ou outra entre cada piscada profunda. Eles pulsavam intermitentemente, como piscas-piscas, iluminando o rosto dele e avisando-me do perigo. Um sinal, no meio da estrada. “Pare, fuja enquanto há tempo”, dizia o sinal luminoso. Eu pensei comigo: ou eu faço algo ou algo será feito de mim. A verdade é que fazer algo era impossível. Diante do que surgia, eu só poderia reagir. Fugir era uma opção latente. Existia, mas não existia. Eu podia, mas não podia. Eu tinha que ouvir primeiro, para então decidir. Contudo, quando chegou a hora, as luzes se apagaram. Fui eu. Eu fechei os olhos, eu fechei meus braços, encolhi meu corpo, afundei meu rosto, cerrei meus lábios e permiti que apenas um único sentido ecoasse suas palavras em mim. E eu as deixei entrar. 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Pág. XVIII à XXI

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Vejam, pode ser doentio pensar assim, mas eu quase me senti decepcionada. Era questão de desespero real. Eu estava disposta a desabar e chorar como uma criança que foi esquecida no colégio. Eu estava disposta a ter um chilique e sair correndo pela casa esbarrando em moveis e objetos com meus braços à solta, como se estivesse sendo perseguida por um serial-killer. Eu estava muito perto, mas muito perto mesmo, de berrar na cara dele com todo meu ódio, jogar sobre ele o que estava me pesando e então ir tranquilamente para cozinha fazer o sanduíche de atum que eu estava pretendendo comer desde quando me sentei para assistir a TV. Meu impulso de fugir estava à beira do incontrolável e não posso me culpar por isso, eu não fui preparada para saber lidar com o desconhecido. Não que eu me conhecesse muito bem para poder dizer, e não me conhecer muito bem era uma das duas únicas coisas que eu sabia sobre mim mesma. Eu era a fusão entre o não-saber e o querer-saber. Meus pais não me criaram para fazer descobertas. Mal sabiam eles que foi exatamente isso que me fez deseja-las ainda mais.
Bom, este assunto é um tanto quanto crítico, mas sei que o certo a se fazer é revela-lo de uma vez. Se posso tentar adiantar, o que eu posso dizer é que se trata de uma questão de metodologia e de imposição do destino, e isso logo-logo fará sentido. Para chegar de uma vez às vias de fato, eu já vou dizendo qual é a questão. Pois bem, o meu problema é que eu adoro epifanias. De fato, é um problema um tanto mais profundo do que isso. Eu não as adoro como gosto de sorvete ou como gosto de assistir desenhos de manhã. Antes fosse. Eu as adoro, adoro como alguém que idolatra um Deus. E uma vez tendo me comprometido com a verdade devo admitir que epifanias são a minha maior meta de vida, e isso não é uma coisa normal. Na verdade, é doentio. Apesar de todo essa minha consciência, eu sei que minha adoração nunca vai se esgotar. Como eu disse, é um problema um tanto mais profundo do que isso.

 Maior que qualquer devoção, eu poderia dizer que epifanias são uma das partes mais importantes de mim; a não ser pelo fato de que sou péssima nisso. A grande piada do destino, hilária e trágica como tudo na minha vida, foi fazer de mim defeituosa naquilo que eu mais precisava saber fazer. Acho que essa deveria ser a revelação. Meu real problema não era ter excessivas epifanias consecutivas, e sim a minha incompetência em tê-las, que me levava a insana busca por elas. O pior não era a vontade tosca de viver esta experiência. O fundo do poço era até onde eu ia na minha fantasia só para tê-la. Houve situações em que eu cheguei ao ponto de forjar ter tido uma epifania, quando eu na verdade nem tinha uma opinião sobre o assunto; em outras eu me perdia na conversa, me ausentava do diálogo, enquanto fantasiava a epifania que melhor se encaixaria na ocasião; em outras fantasiei como eu seria diferente após ter tido a experiência, na crença de que minha vida melhoraria e que eu seria uma pessoa mais interessante; em dias mais difíceis as três situações vinham juntas, uma atrás da outra, em um só segundo. Era bem vergonhoso mesmo, bem como está sendo agora. Por isso, paro por aqui e encerro por enquanto o relato da minha história com as epifanias, ainda que saiba que jamais as deixarei para trás. Até porque, ardilosa como uma cobra, minha ânsia por elas sabe exatamente o momento certo de interceder. 

Pág. XIV à XVIII

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Não por menos, foi a partir daquele dia que eu passei a resgatar cada etapa do ritual - da pausa às palavras infinitas –, e a analisar todos os que vieram a seguir, na tentativa de encontrar alguma pista que me alertasse e me permitisse estar preparada para este tipo de acusação. Se querem saber, eu encontrei. Acho que, de tão desconcertada, eu nunca antes fui capaz de enxergar com clareza. Acho até que antes eu não sabia direito o que eu procurava, logo não sabia direito o que questionar. Após traçar o perfil de meu pai com louvor eu quis ir mais além e, na verdade, eu apenas tive que juntar as peças que eu já havia separado. Eu passei muito tempo revoltada com como ele se safava de todas as mancadas e com como me chocava a falta de caráter dele diante de injustiças que ele mesmo fazia. Logo, enxergar minha teoria não fora tão complicado. Estava pronta, escondida em algum lugar. Eu demorei, mas achei. O grande segredo é que a ilustre sabedoria que ele tanto ostentava se resumia a um reles truque para desviar nossa atenção do motivo real por trás do drama. Ele simplesmente queria ter razão. O ritual em si não tinha a menor importância para ele e, no fundo, só incomodava mesmo a nós duas. É tão simples que chega a ser absurdo.
Essa conclusão me acompanhou desde então, durante as mais variadas ocasiões de conflito –inclusive durante o bendito jantar da maldita noite da revelação. Onde meu pai estivesse minha constatação estaria também. Nada mais justo que no momento do fatídico pronunciamento nada daquilo pouco me importasse, incluindo o comunicado dele. Quando ele se levantou cheio de verdade e pose eu realmente achei o tom do drama mais exagerado do que o normal, mas imediatamente lembrei das tantas síncopes delirantes que tivemos que presenciar e foi inevitável querer saber o que de tão grandioso ele pretendia conseguir desta vez. Seria bem mais fácil se eu o tivesse conhecido naquele mesmo dia, se ele fosse um completo estranho e me abordasse no meio da rua para me contar seu segredo e essa fosse então a única coisa que eu soubesse sobre ele. Mas a vida não acontece desse jeito para todo mundo. Para mim, aquele não era um segredo sem dono e sem passado. Para mim, aquele era o meu pai, e tudo o que ele significava para mim, contando-me um segredo sobre o seu passado e sobre o meu futuro.
Eu estava cansada e o cansaço martelou na minha cabeça. Culpa daquela janta que consumiu o pouco de paciência que eu costumava reservar para as situações de contato. A noite já estava acabando, eu tinha mais o que fazer do que assistir ao segundo round do seu fricote, e só de ter lembrado da janta já estava convencida de que não havia nada de diferente com ele. Ele ainda era o mesmo macho-dramático estúpido e eu não era mais idiota, assim, a leve preocupação que tive havia evaporado. Não sou nenhum monstro, eu tive todos os motivos do mundo. A minha memória dos comunicados não era e ainda hoje não é nem agradável nem interessante. Sem hesitar mais eu usei os 2% de bateria restantes no meu cérebro para ponderar que as chances daquele pronunciamento efetivamente mudar a minha vida eram tão minúsculas que as bizarrices nojentas que estavam usando por volta de 80% da minha atenção visual mereciam mais as últimas gotas de energia do meu dia do que qualquer que fosse o informe que estava por vir. Assim que voltei meus olhos a TV ele começou a falar. Foi quando eu descobri que eu estava enganada. Aquele não era um comunicado qualquer. De cara ele se lamentou por ter que me contar, jurando que jamais esteve em seus planos revelar aquilo. Eu imediatamente pensei: adotada. Por coincidência, ele descartou essa opção. Mas isso não mudava nada. Se ele não pretendia me contar é porque a bomba era atômica e eu, com razão, comecei a pirar. Ainda que a adoção não fosse o caso, existiam outras possibilidades tão catastróficas quanto. Eu mal formulei a alternativa na minha cabeça e ele me adiantou a resposta novamente. Tudo indicava que eu ainda era filha de ambos meus pais. 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Pág. XIX à XIV

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Meus leves traços de crueldade não eram um retrato de algum distúrbio psicológico meu, mas sim o inevitável efeito do que eu acreditava ser um distúrbio dele; fadiga, cansaço e exaustão. Por negação, talvez, eu já cheguei a sentir pena. Eu senti o arrependimento mais sombrio que já vivi quando pensei no quão idiota fui antes de perceber o que acontecia. Ele não me enganava mais. Não cabia mais em mim nada que se assemelhasse a misericórdia ou compaixão. Vivia diante de cenas inexplicáveis como esta e fazia um esforço desumano para compreender o que se passava com ele, mas eu sempre entendia tudo errado. Eu pensava que nada mais poderia explicar sua condição, ou me convencer de que havia uma explicação para o jeito dele, a não ser concluir que meu pai era um homem macho, porém muito dramático. Um homem sério, intransigente, teimoso, prepotente, autoritário – como uma diva. Talvez fosse esse o plano dele. Contudo, como tudo que é perecível, o seu plano expirou. Ele mesmo cavou a própria cova. Ele foi longe demais e permitiu que eu desvendasse a trama da sua armação. Meses antes deste jantar eu notei pela primeira vez que havia um padrão nos surtos dele. E para melhor elucida-los, vou contar uma estória:

Era verão. Fazia calor e eu estava na sala, sentada na janela que dá para o quintal. Eu estava quieta e reflexiva, e ele sabia que eu jamais poderia fingir estar atarefada. Eu logo soube; era uma cilada. Mesmo eu estando indefesa ele seguiu em frente e cumpriu o ritual. Meu ódio embaçou o vidro da janela e eu preferi abri-la para que minha ira pudesse ter alguma passagem para fora do meu lar. Ele pousou junto a janela, cruzou os braços, esperou que eu o olhasse e então me acusou de ter largado um pé de meia usada no chão da sala. Enquanto me interrogava ele descaradamente trocava olhares com a meia desmaiada no chão, insinuando saber de alguma ligação entre nós duas. Alguém otimista ou de bom coração se perguntaria se ele não poderia ter por acaso se enganado e ter deveras achado que a tal meia pertencia a mim. Impossível, apenas impossível. Para que uma meia gigantesca como aquela me pertencesse eu teria que estar secretamente sofrendo de algum mal que provavelmente envolveria um inchaço exorbitante dos pés; ou então eu poderia estar secretamente abrigando algum homem desleixado de baixo do nosso teto, corajoso o suficiente para deixar vestígios pelo caminho sem se importar; ou eu estaria secretamente colecionando meias usadas de homens aleatórios – ou não –, e por algum motivo não fui capaz de guardá-la em seu devido lugar; ou então eu estaria metida com algum esquema muito sórdido de ressuscitação das polainas, mas creio que se fosse o caso eu tomaria todos as precauções para evitar essa revelação. Mas, para quem quer que esteja procurando os culpados de qualquer um destes crimes, continuem as buscas, pois não fui eu! Para o crime da meia no chão eu também estava longe de ser culpada, já que a meia era dele. O que nos leva a concluir que tudo se tratava de uma cena deplorável fundida a um caso de pura falta de caráter
Não por menos, foi a partir daquele dia que eu passei a resgatar cada etapa do ritual - da pausa às palavras infinitas –, e a analisar todos os que vieram a seguir, na tentativa de encontrar alguma pista que me alertasse e me permitisse estar preparada para este tipo de acusação. Se querem saber, eu encontrei. Acho que, de tão desconcertada, eu nunca antes fui capaz de enxergar com clareza. Acho até que antes eu não sabia direito o que eu procurava, logo não sabia direito o que questionar. Após traçar o perfil de meu pai com louvor eu quis ir mais além e, na verdade, eu apenas tive que juntar as peças que eu já havia separado. Eu passei muito tempo revoltada com como ele se safava de todas as mancadas e com como me chocava a falta de caráter dele diante de injustiças que ele mesmo fazia. Logo, enxergar minha teoria não fora tão complicado. Estava pronta, escondida em algum lugar. Eu demorei, mas achei. O grande segredo é que a ilustre sabedoria que ele tanto ostentava se resumia a um reles truque para desviar nossa atenção do motivo real por trás do drama. Ele simplesmente queria ter razão. O ritual em si não tinha a menor importância para ele e, no fundo, só incomodava mesmo a nós duas. É tão simples que chega a ser absurdo.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Pág. VII à X

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Meu pai era uma pessoa esquisita demais. Não bastava que fosse um cara que se aproxima de sua mulher e filha, cruza os braços e espera que elas encerrem toda e qualquer atividade pendente para os próximos trinta minutos só para que ele possa brindá-las com meia dúzia de palavras que se repetem em um ciclo infinito de reclamações, ele tinha que ser isso o tempo todo e em qualquer lugar. A janta e o café-da-manhã eram os momentos mais críticos, mas escolho a janta como o pior dos piores. Não misture salada e prato principal, ele dizia, é nojento. Sem tirar nem pôr, com estas exatas palavras, ele nos presenteava com a sua companhia. De todas as queixas nem uma se salvava. Nosso confronto imediato de cada dia me servia para nada além de um exercício involuntário de paciência. Diante das reclamações mais estapafúrdias e sem propósito minha inteligência era impotente. Mesmo que fosse para refutar, seria inútil. Não havia lógica capaz de contradizer as loucuras dele. Se ele ainda se esforçasse para desafiar minimamente minha capacidade intelectual eu talvez pudesse ver alguma graça em travar um diálogo com ele, mas esse não era o caso, então só me restava optar pela discussão. Suas grandes angústias na vida não se tratavam de questões importantes para humanidade, como a escravidão moderna ou a máfia do mercado bélico, mas sim das mais indispensáveis queixas sobre talheres, saladas e normas de etiqueta em geral. Embora eu não perdesse uma oportunidade de confrontá-lo, eu estava ciente de que fazê-lo era uma total perda de tempo e que o desfecho sempre seria o mesmo. Frente aos meus enfrentamentos ele lançava sua melhor resposta. Ele ajeitava o cinto sobre a barriga, inflava o peito e repetia o mantra:
É nojento – ele dizia –, como se argumento nenhum fosse capaz de superar este fato.                                 
O mais engraçado é que minha mãe cedia, e isso me deixava irada. Após muita pressão, ela passou a fazer coisas idiotas, como pesquisar a posição dos talheres na mesa e o tipo correto de copo para cada bebida. Ao invés de simplesmente comermos a salada antes da comida no mesmo prato – como fizemos nas primeiras vezes que ele começou com essa história macabra e ridícula –, ela decidiu caçar os pratos de cada jogo de louça que tínhamos e medi-los com exatidão, com a única preocupação de que todos nós tivéssemos nosso próprio prato para salada só para que pudéssemos dispô-los perfeitamente sobre a louça do prato principal. Juro – isto aconteceu. Foi na janta do dia do pronunciamento que ela finalmente conseguiu cuidar de todos os detalhes para a mesa perfeita que meu pai exigira por tanto tempo. Ela gritou nosso nome com animação. Eu fui correndo para a cozinha e me deparei com aquele mar de louças floridas que mais pareciam bibelôs de porcelana. Nós duas nos sentamos a mesa prontas para a janta, mas ele não chegava nunca. Eu fui até ele. Eu fui busca-lo no quarto – coisa que jamais fazia –, apenas por amor a minha mãe. Ele estava fincado ao chão, de frente para cômoda e de costas para a porta. Eu cheguei mais perto e vi sua expressão estática, com os olhos fixos encarando o celular. Nós dois estávamos no mesmo lugar, mas só um podia ver o outro. Minha voz se cansou de tanto chamar, e quando ele deu por si, simplesmente passou por mim e saiu do quarto. Ter ido busca-lo não foi pior do que ter ido atrás dele naquela hora. Quando o alcancei na cozinha presenciei seu corpo alto sentar-se à mesa, dizendo:

– O que há de errado com essa mesa? - Disse o homem espirituoso.

          A minha vontade naquele momento era triturar cada prato, copo e talher e enfiar-lhe todos os cacos goela a baixo. Juro – mais uma vez –, se ele estivesse sentado ao meu lado esse relato seria de uma adolescente interna, presa aos seus 15 anos por trucidar seu pai durante o jantar de domingo. O máximo que pude fazer com a minha raiva, porém, foi avançar na comida, para logo despejar minha salada no prato e misturá-la lentamente ao macarrão com queijo, sem dó nem piedade. Posso confirmar, isso bastou para que ele quase enfartasse. E eu me satisfiz. 


Catarina H. F. Rezende
  

sábado, 2 de janeiro de 2016

AS LEIS DA PIZZA

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Capítulo 1


Um dia desses eu estava na sala com meus pais assistindo bizarrices não-comprovadas pela ciência em um canal de credibilidade muito duvidoso. Nós estávamos quase completamente atentos aos absurdos que as pessoas falavam no programa e, de repente – BUM! –, meu pai se levanta e pede para que eu volte a atenção a ele, usando toda a sua soberania para me convencer de que ceder a seu pedido era minha obrigação. Mesmo que fazer comunicados dramáticos fosse um hábito, os pronunciamentos costumavam vir em uma escala menor do que o desse dia e de cara vi que aquele fugia ao padrão ritualístico dos seus dramas. De qualquer forma, não foi suficiente para compadecer. Eu estava constantemente preparada para qualquer eventual agravamento de sua irritação. E se aquele pronunciamento se encaixava nesta categoria eu não estava disposta a saber. Normalmente esses pronunciamentos tratavam-se de alguma reclamação sobre as tarefas domésticas e com a frequência dos seus dramas minha mãe e eu estávamos vacinadas. Por maior que fosse o escândalo, sabíamos que o motivo do comunicado definitivamente seria meramente apelativo. O ritual funciona assim: ele se aproxima, cruza os braços, nos encara por vários longos minutos até que nós percebamos que nada mais importa naquele momento senão o que ele tem a dizer, então, ele fala eternamente até o fim dos tempos coisas com sentido sem a menor relação com a situação. Às vezes a coisa crescia um pouco e ele se deixava levar pelo momento, esmurrando superfícies e objetos. Com uma precisão pavorosa ele sempre sabia escolher o tom de voz certo para fazer valer a sua imposição – e essa era a única coisa que se fazia precisa ali. Mesmo conhecendo toda essa encenação de cor e salteado nem sempre conseguíamos manter a postura. Pelo menos eu não. Já minha mãe tinha uma perspectiva um pouquinho diferente da minha. Ela podia estampar algumas caras feias para mim em situações aleatórias de leves excessos, mas sei com certeza que ela não desaprovava meus protestos. Ao contrário. A verdade é que ela contava com eles para garantir a conclusão das tarefas do dia-a-dia que por diversas vezes eram interrompidas pelas intervenções fascistas do meu pai. Justamente por isso eu não poderia jamais deixar barato. Dependendo da época do mês era muito provável que eu transformasse aquele teatro medíocre dele em uma arena de discussão. Descobri que eu não tenho a vocação para ficar calada, bem diferente de minha mãe. Meu pai cuidava para que todos os dias tivéssemos ao menos um momento de contato visual, mas como eu não costumava estar disposta a deixar passar nem mesmo um olhar atravessado dele, vários dos nossos encontros se tornavam grandes sessões de acusações.               

Catarina H. F. Rezende

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

PRÓLOGO

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Olá,

Venho por meio desta oficializar minha intenção de intervir no futuro. Pouco fiz por um tempo e agora que tanto foi feito me sinto no dever de não seguir em frente sozinha. Para tanto, coloquei em palavras uma compilação dos fatos verídicos que tive o prazer de vivenciar. Estes fatos abordam um ou mais assuntos de extrema importância e relevância social, mas descarto como tema centrais os casos de morte, quase morte, casamento ou divórcio e coisas do amor. Este registro documental biográfico é um relato sobre horizontes, precipícios, fins e os casos citados acima são tudo mais que existe entre estes três. Para explicar a ordem dos acontecimentos fiz uma separação cronológica imaginária dos eventos que poderá ajuda-los bastante. Tudo começou com O Fim, que se iniciou comigo – desde o dia em que nasci até o dia que tropecei; logo depois veio O Meio, que começou a partir do momento em que caí; e finalmente O Começo, que se iniciou imediatamente assim que precipitei e encontrei meu horizonte. Entender isso não é assim tão fácil e exige perícia na arte da interpretação e da sensibilidade, algo que é especialmente delicado para mim. Por isso serei responsável e abrirei mão de qualquer salto temporal que nos leve diretamente para onde se vê o tal horizonte. Até porque o que o conjunto da obra já é por si só para lá de complicado, então peço que compreendam a necessidade de conhecer o meio para que se entenda o final, e o final para que se aprecie o começo.                       
Em suma, este relato digitado fará a narração detalhada da gloriosa estória da descoberta da minha vida. E já que meu fim se aproxima, se estreitando na beira desta página e brotando na fronteira com a seguinte, desejo a todos nós muita boa sorte e alguma paciência, segura de que logo entenderão tudo o que falei.

São estes meus mais sinceros votos,

Att


Ana Clarissa Vieira Drummond.