Este Blog é uma plataforma de divulgação do livro autoral AS LEIS DA PIZZA
– Eu
não tenho ideia do que você está pensando agora, mas o que você precisa saber é
que existe uma outra pessoa. Existe outra pessoa nas nossas vidas. –
Minha
mãe. Eu só pensei na minha mãe. Se era uma amante eu não era a traída, ou a
mais traída. Não, não podia existir alguém que o quisesse. Nem a gente queria.
Não podia ser. Tentei, mas não dava mais para ficar desacordada. Eu acordei:
– Como
é¿ O que você quer dizer com isso¿
– Não
quero que você se assuste. E isso tudo talvez não seja tão grave, também não tem
que ser uma coisa ruim.
– Pai,
do que é que você está falando¿
– Calma,
a gente vai conversar, eu vou explicar.
– Eu
não quero conversa, eu quero a verdade. Você vai me dizer agora o que isso quer
dizer. Você não pode fazer isso comigo. Você tem a obrigação de me dizer agora
o que está acontecendo.
– Por
favor, espere um minuto...
– Não,
não, não, não. - Eu me levantei, erguida pela força do desespero, munida com
minhas palavras embaralhadas apertadas sob meus dedos, esmagadas contra a palma
da minha mão. – Eu não tenho que esperar mais um segundo. Nem que eu quisesse, eu
não conseguiria mais. Você vai ter que me falar tudo e vai fazer isso agora.
– Clarissa, eu.... Eu não sei mais o que dizer,
eu já disse tudo o que eu sou capaz de dizer.
– Não,
você não disse! – Explodiu minha mãe, em prantos. Meu pai engoliu, em espanto.
Ele travou.
Ele
travou o corpo. Meio cambaleando, meio reticente, ele fez o esforço de
racionalizar o seu estado no tempo e espaço. No seu rosto, eu vi, os seus nós
se afrouxavam, mas ele não os permitia desatar. Nós três pairamos no silêncio
por um instante. Ela o rompeu:
–
César! – Chamou por ele, numa vontade descontrolada de exterminar tudo de uma
vez.
Não adiantava. Ou aquela não era a hora dele. Se era, ele não deixaria que
fosse. Meu pai precisou de mais alguns segundos para conseguir desfazer
completamente o personagem que ancorou em si por tantos anos. Por tanto tempo ele
foi o tirano, nos submetendo a sua inquisição sufocante. Antes éramos nós sob
os holofotes da sua sentença implacável. Tomar o nosso lugar não era simples.
Eu entendi, ele queria adiar a sua redenção. Quanto a mim, eu não via a hora,
mas não me preocupei em acelerar. Eu
havia me duplicado, era como me sentia. Inexplicável, a não ser pela sensação
de separação. Como duas partes. Eu estava alerta e dispersa. Um ânimo se remexia
dentro de mim e meu corpo se embaraçava tamanha minha sede de sangue, de
vingança. Mas a despeito da ira, minha mente não queria nada além de sumir no
embaraço e flutuar. Duas partes de mim. Algo tipo um surto súbito de loucura,
na hora mais inoportuna. Algo começou a mudar. Acho que uma das partes estava
se despedindo de mim mesma, eu só não sabia qual. Uma delas segurava contra o
peito o temor da grandiosidade da estupidez da vida adulta que borbulhava
diante de seus olhos. Ela me tirou daquele lugar e me deixou observando a
confusão ao meu redor. Eu vi pouco, mas vi o suficiente. Minha mãe se tremia
por inteiro, mas não hesitava. Já meu pai se mantinha frio, congelado no tempo,
insistindo em estampar no rosto o que havia sobrado do seu personagem ditador.
Não era escárnio dele, era medo. Para delírio de todos, foi a certeza da minha
mãe – coisa que eu jamais havia presenciado na vida –, que não deu brechas. Ele
bem que não queria, mas a queda já estava à vista. A hora chegou e ele se
desfez.