sábado, 2 de janeiro de 2016

AS LEIS DA PIZZA

Este Blog é uma plataforma de divulgação do livro autoral AS LEIS DA PIZZA

Capítulo 1


Um dia desses eu estava na sala com meus pais assistindo bizarrices não-comprovadas pela ciência em um canal de credibilidade muito duvidoso. Nós estávamos quase completamente atentos aos absurdos que as pessoas falavam no programa e, de repente – BUM! –, meu pai se levanta e pede para que eu volte a atenção a ele, usando toda a sua soberania para me convencer de que ceder a seu pedido era minha obrigação. Mesmo que fazer comunicados dramáticos fosse um hábito, os pronunciamentos costumavam vir em uma escala menor do que o desse dia e de cara vi que aquele fugia ao padrão ritualístico dos seus dramas. De qualquer forma, não foi suficiente para compadecer. Eu estava constantemente preparada para qualquer eventual agravamento de sua irritação. E se aquele pronunciamento se encaixava nesta categoria eu não estava disposta a saber. Normalmente esses pronunciamentos tratavam-se de alguma reclamação sobre as tarefas domésticas e com a frequência dos seus dramas minha mãe e eu estávamos vacinadas. Por maior que fosse o escândalo, sabíamos que o motivo do comunicado definitivamente seria meramente apelativo. O ritual funciona assim: ele se aproxima, cruza os braços, nos encara por vários longos minutos até que nós percebamos que nada mais importa naquele momento senão o que ele tem a dizer, então, ele fala eternamente até o fim dos tempos coisas com sentido sem a menor relação com a situação. Às vezes a coisa crescia um pouco e ele se deixava levar pelo momento, esmurrando superfícies e objetos. Com uma precisão pavorosa ele sempre sabia escolher o tom de voz certo para fazer valer a sua imposição – e essa era a única coisa que se fazia precisa ali. Mesmo conhecendo toda essa encenação de cor e salteado nem sempre conseguíamos manter a postura. Pelo menos eu não. Já minha mãe tinha uma perspectiva um pouquinho diferente da minha. Ela podia estampar algumas caras feias para mim em situações aleatórias de leves excessos, mas sei com certeza que ela não desaprovava meus protestos. Ao contrário. A verdade é que ela contava com eles para garantir a conclusão das tarefas do dia-a-dia que por diversas vezes eram interrompidas pelas intervenções fascistas do meu pai. Justamente por isso eu não poderia jamais deixar barato. Dependendo da época do mês era muito provável que eu transformasse aquele teatro medíocre dele em uma arena de discussão. Descobri que eu não tenho a vocação para ficar calada, bem diferente de minha mãe. Meu pai cuidava para que todos os dias tivéssemos ao menos um momento de contato visual, mas como eu não costumava estar disposta a deixar passar nem mesmo um olhar atravessado dele, vários dos nossos encontros se tornavam grandes sessões de acusações.               

Catarina H. F. Rezende

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