Este Blog é uma plataforma de divulgação do livro autoral AS LEIS DA PIZZA
Capítulo 1
Capítulo 1
Um
dia desses eu estava na sala com meus pais assistindo bizarrices
não-comprovadas pela ciência em um canal de credibilidade muito duvidoso. Nós
estávamos quase completamente atentos aos absurdos que as pessoas falavam no
programa e, de repente – BUM! –, meu pai se levanta e pede para que eu volte a
atenção a ele, usando toda a sua soberania para me convencer de que ceder a seu
pedido era minha obrigação. Mesmo que fazer comunicados dramáticos fosse um
hábito, os pronunciamentos costumavam vir em uma escala menor do que o desse
dia e de cara vi que aquele fugia ao padrão ritualístico dos seus dramas. De
qualquer forma, não foi suficiente para compadecer. Eu estava constantemente
preparada para qualquer eventual agravamento de sua irritação. E se aquele
pronunciamento se encaixava nesta categoria eu não estava disposta a saber. Normalmente
esses pronunciamentos tratavam-se de alguma reclamação sobre as tarefas
domésticas e com a frequência dos seus dramas minha mãe e eu estávamos
vacinadas. Por maior que fosse o escândalo, sabíamos que o motivo do comunicado
definitivamente seria meramente apelativo. O ritual funciona assim: ele se
aproxima, cruza os braços, nos encara por vários longos minutos até que nós
percebamos que nada mais importa naquele momento senão o que ele tem a dizer,
então, ele fala eternamente até o fim dos tempos coisas com sentido sem a menor
relação com a situação. Às vezes a coisa crescia um pouco e ele se deixava
levar pelo momento, esmurrando superfícies e objetos. Com uma precisão pavorosa
ele sempre sabia escolher o tom de voz certo para fazer valer a sua imposição –
e essa era a única coisa que se fazia precisa ali. Mesmo conhecendo toda essa
encenação de cor e salteado nem sempre conseguíamos manter a postura. Pelo
menos eu não. Já minha mãe tinha uma perspectiva um pouquinho diferente da
minha. Ela podia estampar algumas caras feias para mim em situações aleatórias
de leves excessos, mas sei com certeza que ela não desaprovava meus protestos.
Ao contrário. A verdade é que ela contava com eles para garantir a conclusão
das tarefas do dia-a-dia que por diversas vezes eram interrompidas pelas
intervenções fascistas do meu pai. Justamente por isso eu não poderia jamais
deixar barato. Dependendo da época do mês era muito provável que eu
transformasse aquele teatro medíocre dele em uma arena de discussão. Descobri
que eu não tenho a vocação para ficar calada, bem diferente de minha mãe. Meu pai
cuidava para que todos os dias tivéssemos ao menos um momento de contato
visual, mas como eu não costumava estar disposta a deixar passar nem mesmo um olhar
atravessado dele, vários dos nossos encontros se tornavam grandes sessões de
acusações.
Catarina H. F. Rezende
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