sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Pág. XIV à XVIII

              Este Blog é uma plataforma de divulgação do livro autoral AS LEIS DA PIZZA 

Não por menos, foi a partir daquele dia que eu passei a resgatar cada etapa do ritual - da pausa às palavras infinitas –, e a analisar todos os que vieram a seguir, na tentativa de encontrar alguma pista que me alertasse e me permitisse estar preparada para este tipo de acusação. Se querem saber, eu encontrei. Acho que, de tão desconcertada, eu nunca antes fui capaz de enxergar com clareza. Acho até que antes eu não sabia direito o que eu procurava, logo não sabia direito o que questionar. Após traçar o perfil de meu pai com louvor eu quis ir mais além e, na verdade, eu apenas tive que juntar as peças que eu já havia separado. Eu passei muito tempo revoltada com como ele se safava de todas as mancadas e com como me chocava a falta de caráter dele diante de injustiças que ele mesmo fazia. Logo, enxergar minha teoria não fora tão complicado. Estava pronta, escondida em algum lugar. Eu demorei, mas achei. O grande segredo é que a ilustre sabedoria que ele tanto ostentava se resumia a um reles truque para desviar nossa atenção do motivo real por trás do drama. Ele simplesmente queria ter razão. O ritual em si não tinha a menor importância para ele e, no fundo, só incomodava mesmo a nós duas. É tão simples que chega a ser absurdo.
Essa conclusão me acompanhou desde então, durante as mais variadas ocasiões de conflito –inclusive durante o bendito jantar da maldita noite da revelação. Onde meu pai estivesse minha constatação estaria também. Nada mais justo que no momento do fatídico pronunciamento nada daquilo pouco me importasse, incluindo o comunicado dele. Quando ele se levantou cheio de verdade e pose eu realmente achei o tom do drama mais exagerado do que o normal, mas imediatamente lembrei das tantas síncopes delirantes que tivemos que presenciar e foi inevitável querer saber o que de tão grandioso ele pretendia conseguir desta vez. Seria bem mais fácil se eu o tivesse conhecido naquele mesmo dia, se ele fosse um completo estranho e me abordasse no meio da rua para me contar seu segredo e essa fosse então a única coisa que eu soubesse sobre ele. Mas a vida não acontece desse jeito para todo mundo. Para mim, aquele não era um segredo sem dono e sem passado. Para mim, aquele era o meu pai, e tudo o que ele significava para mim, contando-me um segredo sobre o seu passado e sobre o meu futuro.
Eu estava cansada e o cansaço martelou na minha cabeça. Culpa daquela janta que consumiu o pouco de paciência que eu costumava reservar para as situações de contato. A noite já estava acabando, eu tinha mais o que fazer do que assistir ao segundo round do seu fricote, e só de ter lembrado da janta já estava convencida de que não havia nada de diferente com ele. Ele ainda era o mesmo macho-dramático estúpido e eu não era mais idiota, assim, a leve preocupação que tive havia evaporado. Não sou nenhum monstro, eu tive todos os motivos do mundo. A minha memória dos comunicados não era e ainda hoje não é nem agradável nem interessante. Sem hesitar mais eu usei os 2% de bateria restantes no meu cérebro para ponderar que as chances daquele pronunciamento efetivamente mudar a minha vida eram tão minúsculas que as bizarrices nojentas que estavam usando por volta de 80% da minha atenção visual mereciam mais as últimas gotas de energia do meu dia do que qualquer que fosse o informe que estava por vir. Assim que voltei meus olhos a TV ele começou a falar. Foi quando eu descobri que eu estava enganada. Aquele não era um comunicado qualquer. De cara ele se lamentou por ter que me contar, jurando que jamais esteve em seus planos revelar aquilo. Eu imediatamente pensei: adotada. Por coincidência, ele descartou essa opção. Mas isso não mudava nada. Se ele não pretendia me contar é porque a bomba era atômica e eu, com razão, comecei a pirar. Ainda que a adoção não fosse o caso, existiam outras possibilidades tão catastróficas quanto. Eu mal formulei a alternativa na minha cabeça e ele me adiantou a resposta novamente. Tudo indicava que eu ainda era filha de ambos meus pais. 

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