Este Blog é uma plataforma de divulgação do livro autoral AS LEIS DA PIZZA
Não por menos, foi a partir daquele dia que eu passei a resgatar cada etapa do ritual - da pausa às palavras infinitas –, e a analisar todos os que vieram a seguir, na tentativa de encontrar alguma pista que me alertasse e me permitisse estar preparada para este tipo de acusação. Se querem saber, eu encontrei. Acho que, de tão desconcertada, eu nunca antes fui capaz de enxergar com clareza. Acho até que antes eu não sabia direito o que eu procurava, logo não sabia direito o que questionar. Após traçar o perfil de meu pai com louvor eu quis ir mais além e, na verdade, eu apenas tive que juntar as peças que eu já havia separado. Eu passei muito tempo revoltada com como ele se safava de todas as mancadas e com como me chocava a falta de caráter dele diante de injustiças que ele mesmo fazia. Logo, enxergar minha teoria não fora tão complicado. Estava pronta, escondida em algum lugar. Eu demorei, mas achei. O grande segredo é que a ilustre sabedoria que ele tanto ostentava se resumia a um reles truque para desviar nossa atenção do motivo real por trás do drama. Ele simplesmente queria ter razão. O ritual em si não tinha a menor importância para ele e, no fundo, só incomodava mesmo a nós duas. É tão simples que chega a ser absurdo.
Não por menos, foi a partir daquele dia que eu passei a resgatar cada etapa do ritual - da pausa às palavras infinitas –, e a analisar todos os que vieram a seguir, na tentativa de encontrar alguma pista que me alertasse e me permitisse estar preparada para este tipo de acusação. Se querem saber, eu encontrei. Acho que, de tão desconcertada, eu nunca antes fui capaz de enxergar com clareza. Acho até que antes eu não sabia direito o que eu procurava, logo não sabia direito o que questionar. Após traçar o perfil de meu pai com louvor eu quis ir mais além e, na verdade, eu apenas tive que juntar as peças que eu já havia separado. Eu passei muito tempo revoltada com como ele se safava de todas as mancadas e com como me chocava a falta de caráter dele diante de injustiças que ele mesmo fazia. Logo, enxergar minha teoria não fora tão complicado. Estava pronta, escondida em algum lugar. Eu demorei, mas achei. O grande segredo é que a ilustre sabedoria que ele tanto ostentava se resumia a um reles truque para desviar nossa atenção do motivo real por trás do drama. Ele simplesmente queria ter razão. O ritual em si não tinha a menor importância para ele e, no fundo, só incomodava mesmo a nós duas. É tão simples que chega a ser absurdo.
Essa conclusão me acompanhou desde então, durante as mais variadas
ocasiões de conflito –inclusive durante o bendito jantar da maldita noite da
revelação. Onde meu pai estivesse minha constatação estaria também. Nada mais
justo que no momento do fatídico pronunciamento nada daquilo pouco me
importasse, incluindo o comunicado dele. Quando ele se levantou cheio de
verdade e pose eu realmente achei o tom do drama mais exagerado do que o
normal, mas imediatamente lembrei das tantas síncopes delirantes que tivemos
que presenciar e foi inevitável querer saber o que de tão grandioso ele
pretendia conseguir desta vez. Seria bem mais fácil se eu o tivesse conhecido
naquele mesmo dia, se ele fosse um completo estranho e me abordasse no meio da
rua para me contar seu segredo e essa fosse então a única coisa que eu soubesse
sobre ele. Mas a vida não acontece desse jeito para todo mundo. Para mim,
aquele não era um segredo sem dono e sem passado. Para mim, aquele era o meu
pai, e tudo o que ele significava para mim, contando-me um segredo sobre o seu
passado e sobre o meu futuro.
Eu estava cansada e o cansaço martelou na minha
cabeça. Culpa daquela janta que consumiu o pouco de paciência que eu costumava
reservar para as situações de contato. A noite já estava acabando, eu tinha
mais o que fazer do que assistir ao segundo round do seu fricote, e só de ter
lembrado da janta já estava convencida de que não havia nada de diferente com
ele. Ele ainda era o mesmo macho-dramático estúpido e eu não era mais idiota,
assim, a leve preocupação que tive havia evaporado. Não sou nenhum monstro, eu
tive todos os motivos do mundo. A minha memória dos comunicados não era e ainda
hoje não é nem agradável nem interessante. Sem hesitar mais eu usei os 2% de
bateria restantes no meu cérebro para ponderar que as chances daquele
pronunciamento efetivamente mudar a minha vida eram tão minúsculas que as
bizarrices nojentas que estavam usando por volta de 80% da minha atenção visual
mereciam mais as últimas gotas de energia do meu dia do que qualquer que fosse
o informe que estava por vir. Assim que voltei meus olhos a TV ele começou a
falar. Foi quando eu descobri que eu estava enganada. Aquele não era um
comunicado qualquer. De cara ele se lamentou por ter que me contar, jurando que jamais
esteve em seus planos revelar aquilo. Eu imediatamente pensei: adotada. Por
coincidência, ele descartou essa opção. Mas isso não mudava nada. Se ele não
pretendia me contar é porque a bomba era atômica e eu, com razão, comecei a
pirar. Ainda que a adoção não fosse o caso, existiam outras possibilidades tão
catastróficas quanto. Eu mal formulei a alternativa na minha cabeça e ele me
adiantou a resposta novamente. Tudo indicava que eu ainda era filha de ambos
meus pais.
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