Este Blog é uma plataforma de divulgação do livro autoral AS LEIS DA PIZZA
Para
me proteger de mim mesma, eu tomei a decisão deixar o meu sensor de epifanias
no silencioso, o que significa que ele estava sempre calado, porém sempre em
ação. Quando entendi que aquilo não se tratava de um mero faniquito e que havia
um risco de algo gravíssimo acontecer comigo eu cedi ao desespero. Foi bem
rápido, só não tão rápido quanto o pensamento. Puxei o ar bem fundo e com ele
veio uma palavra: Adotada. Ela bateu na trave. Puxei o ar mais uma vez e outra
palavra veio junto. “Bastarda”, eu vi escrito na minha frente. Passou raspando,
mas errei. Normal. Como sempre, meus palpites equivocados foram o mais perto
que cheguei de uma revelação. E eu dou graças a Deus por isso. Assim, eles só
me provaram mais uma vez que as epifanias não são para mim. Eu errei em ceder,
mas acho que é o que acontece com qualquer pessoa em reabilitação. Você está
sempre à beira da recaída. Mas eu me recompus. Segui em frente.
Mais
calma, eu lembrei a mim mesma do que eu tinha compreendido meses antes: adaptar
a minha necessidade a minha realidade. Ao invés de crer na improvável conquista
da revelação instantânea, eu lembrei do que eu aprendi sozinha. A dedução era
mais eficaz para mim; uma escolha sensata e efetivamente mais saudável. A
propósito, foi assim que desmascarei meu pai, não foi? Através da investigação.
Esta descoberta foi libertadoramente fantástica e fantasticamente libertadora.
O
fato de meu pai ser um homem macho dramático dava a ele infinitas liberdades, e
me machucava demais entender isso tão bem e tão só. Talvez essa não fosse
apenas a minha primeira grande teoria, mas também a minha primeira maior dor. A
teoria posso provar: tudo o que ele queria era estar isento de qualquer regra e
absolvido de qualquer acusação. Aquele ritual idiota dele era mais uma forma
dele controlar a gente e manipular a nossas cabeças.
Após
anos de acusações mentirosas, ele teve a coragem de usar o mesmo ritual para
nos contar a única verdade que ouvi dele na vida. Nosso parentesco estava
assegurado. A nossa família, nem tanto. Para mim isso é, portanto, a prova de
como minha teoria podia ser ao mesmo tempo minha primeira grande conquista e minha
primeira grande decepção – pelo menos até aquele momento. Minha cabeça estava um
aglomerado de palpites inúteis, raiva – é claro! –, uns bons quilos de poeira
das minhas antigas decepções, um pouco de satisfação pelo sucesso da minha
teoria, e a óbvia desorientação emocional e psicológica como resultado da
mistura de todos os ingredientes anteriores. Mas aí, ele continuou a falar e eu
tive que arrumar a bagunça para dar espaço ao caos que viria com a revelação
que ele estava prestes a fazer.
Meus
olhos se acenderam e o brilho era tão intenso que eu mal podia mantê-los
abertos. Eu os segurava, os obrigava a continuarem alerta, mas as pálpebras se
jogavam sobre eles repetidamente, permitindo apenas que o brilho escapasse vez
ou outra entre cada piscada profunda. Eles pulsavam intermitentemente, como
piscas-piscas, iluminando o rosto dele e avisando-me do perigo. Um sinal, no
meio da estrada. “Pare, fuja enquanto há tempo”, dizia o sinal luminoso. Eu
pensei comigo: ou eu faço algo ou algo será feito de mim. A verdade é que fazer
algo era impossível. Diante do que surgia, eu só poderia reagir. Fugir era uma
opção latente. Existia, mas não existia. Eu podia, mas não podia. Eu tinha que
ouvir primeiro, para então decidir. Contudo, quando chegou a hora, as luzes se
apagaram. Fui eu. Eu fechei os olhos, eu fechei meus braços, encolhi meu corpo,
afundei meu rosto, cerrei meus lábios e permiti que apenas um único sentido ecoasse
suas palavras em mim. E eu as deixei entrar.
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