domingo, 10 de janeiro de 2016

Pág. XXI à XXIV

           Este Blog é uma plataforma de divulgação do livro autoral AS LEIS DA PIZZA 


Para me proteger de mim mesma, eu tomei a decisão deixar o meu sensor de epifanias no silencioso, o que significa que ele estava sempre calado, porém sempre em ação. Quando entendi que aquilo não se tratava de um mero faniquito e que havia um risco de algo gravíssimo acontecer comigo eu cedi ao desespero. Foi bem rápido, só não tão rápido quanto o pensamento. Puxei o ar bem fundo e com ele veio uma palavra: Adotada. Ela bateu na trave. Puxei o ar mais uma vez e outra palavra veio junto. “Bastarda”, eu vi escrito na minha frente. Passou raspando, mas errei. Normal. Como sempre, meus palpites equivocados foram o mais perto que cheguei de uma revelação. E eu dou graças a Deus por isso. Assim, eles só me provaram mais uma vez que as epifanias não são para mim. Eu errei em ceder, mas acho que é o que acontece com qualquer pessoa em reabilitação. Você está sempre à beira da recaída. Mas eu me recompus. Segui em frente.
Mais calma, eu lembrei a mim mesma do que eu tinha compreendido meses antes: adaptar a minha necessidade a minha realidade. Ao invés de crer na improvável conquista da revelação instantânea, eu lembrei do que eu aprendi sozinha. A dedução era mais eficaz para mim; uma escolha sensata e efetivamente mais saudável. A propósito, foi assim que desmascarei meu pai, não foi? Através da investigação. Esta descoberta foi libertadoramente fantástica e fantasticamente libertadora.
O fato de meu pai ser um homem macho dramático dava a ele infinitas liberdades, e me machucava demais entender isso tão bem e tão só. Talvez essa não fosse apenas a minha primeira grande teoria, mas também a minha primeira maior dor. A teoria posso provar: tudo o que ele queria era estar isento de qualquer regra e absolvido de qualquer acusação. Aquele ritual idiota dele era mais uma forma dele controlar a gente e manipular a nossas cabeças.
Após anos de acusações mentirosas, ele teve a coragem de usar o mesmo ritual para nos contar a única verdade que ouvi dele na vida. Nosso parentesco estava assegurado. A nossa família, nem tanto. Para mim isso é, portanto, a prova de como minha teoria podia ser ao mesmo tempo minha primeira grande conquista e minha primeira grande decepção – pelo menos até aquele momento. Minha cabeça estava um aglomerado de palpites inúteis, raiva – é claro! –, uns bons quilos de poeira das minhas antigas decepções, um pouco de satisfação pelo sucesso da minha teoria, e a óbvia desorientação emocional e psicológica como resultado da mistura de todos os ingredientes anteriores. Mas aí, ele continuou a falar e eu tive que arrumar a bagunça para dar espaço ao caos que viria com a revelação que ele estava prestes a fazer.
Meus olhos se acenderam e o brilho era tão intenso que eu mal podia mantê-los abertos. Eu os segurava, os obrigava a continuarem alerta, mas as pálpebras se jogavam sobre eles repetidamente, permitindo apenas que o brilho escapasse vez ou outra entre cada piscada profunda. Eles pulsavam intermitentemente, como piscas-piscas, iluminando o rosto dele e avisando-me do perigo. Um sinal, no meio da estrada. “Pare, fuja enquanto há tempo”, dizia o sinal luminoso. Eu pensei comigo: ou eu faço algo ou algo será feito de mim. A verdade é que fazer algo era impossível. Diante do que surgia, eu só poderia reagir. Fugir era uma opção latente. Existia, mas não existia. Eu podia, mas não podia. Eu tinha que ouvir primeiro, para então decidir. Contudo, quando chegou a hora, as luzes se apagaram. Fui eu. Eu fechei os olhos, eu fechei meus braços, encolhi meu corpo, afundei meu rosto, cerrei meus lábios e permiti que apenas um único sentido ecoasse suas palavras em mim. E eu as deixei entrar. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário