sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Pág. XVIII à XXI

             Este Blog é uma plataforma de divulgação do livro autoral AS LEIS DA PIZZA 


Vejam, pode ser doentio pensar assim, mas eu quase me senti decepcionada. Era questão de desespero real. Eu estava disposta a desabar e chorar como uma criança que foi esquecida no colégio. Eu estava disposta a ter um chilique e sair correndo pela casa esbarrando em moveis e objetos com meus braços à solta, como se estivesse sendo perseguida por um serial-killer. Eu estava muito perto, mas muito perto mesmo, de berrar na cara dele com todo meu ódio, jogar sobre ele o que estava me pesando e então ir tranquilamente para cozinha fazer o sanduíche de atum que eu estava pretendendo comer desde quando me sentei para assistir a TV. Meu impulso de fugir estava à beira do incontrolável e não posso me culpar por isso, eu não fui preparada para saber lidar com o desconhecido. Não que eu me conhecesse muito bem para poder dizer, e não me conhecer muito bem era uma das duas únicas coisas que eu sabia sobre mim mesma. Eu era a fusão entre o não-saber e o querer-saber. Meus pais não me criaram para fazer descobertas. Mal sabiam eles que foi exatamente isso que me fez deseja-las ainda mais.
Bom, este assunto é um tanto quanto crítico, mas sei que o certo a se fazer é revela-lo de uma vez. Se posso tentar adiantar, o que eu posso dizer é que se trata de uma questão de metodologia e de imposição do destino, e isso logo-logo fará sentido. Para chegar de uma vez às vias de fato, eu já vou dizendo qual é a questão. Pois bem, o meu problema é que eu adoro epifanias. De fato, é um problema um tanto mais profundo do que isso. Eu não as adoro como gosto de sorvete ou como gosto de assistir desenhos de manhã. Antes fosse. Eu as adoro, adoro como alguém que idolatra um Deus. E uma vez tendo me comprometido com a verdade devo admitir que epifanias são a minha maior meta de vida, e isso não é uma coisa normal. Na verdade, é doentio. Apesar de todo essa minha consciência, eu sei que minha adoração nunca vai se esgotar. Como eu disse, é um problema um tanto mais profundo do que isso.

 Maior que qualquer devoção, eu poderia dizer que epifanias são uma das partes mais importantes de mim; a não ser pelo fato de que sou péssima nisso. A grande piada do destino, hilária e trágica como tudo na minha vida, foi fazer de mim defeituosa naquilo que eu mais precisava saber fazer. Acho que essa deveria ser a revelação. Meu real problema não era ter excessivas epifanias consecutivas, e sim a minha incompetência em tê-las, que me levava a insana busca por elas. O pior não era a vontade tosca de viver esta experiência. O fundo do poço era até onde eu ia na minha fantasia só para tê-la. Houve situações em que eu cheguei ao ponto de forjar ter tido uma epifania, quando eu na verdade nem tinha uma opinião sobre o assunto; em outras eu me perdia na conversa, me ausentava do diálogo, enquanto fantasiava a epifania que melhor se encaixaria na ocasião; em outras fantasiei como eu seria diferente após ter tido a experiência, na crença de que minha vida melhoraria e que eu seria uma pessoa mais interessante; em dias mais difíceis as três situações vinham juntas, uma atrás da outra, em um só segundo. Era bem vergonhoso mesmo, bem como está sendo agora. Por isso, paro por aqui e encerro por enquanto o relato da minha história com as epifanias, ainda que saiba que jamais as deixarei para trás. Até porque, ardilosa como uma cobra, minha ânsia por elas sabe exatamente o momento certo de interceder. 

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