quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Pág. XXIV à XXVII

                   Este Blog é uma plataforma de divulgação do livro autoral AS LEIS DA PIZZA 

– Eu não tenho ideia do que você está pensando agora, mas o que você precisa saber é que existe uma outra pessoa. Existe outra pessoa nas nossas vidas. –
Minha mãe. Eu só pensei na minha mãe. Se era uma amante eu não era a traída, ou a mais traída. Não, não podia existir alguém que o quisesse. Nem a gente queria. Não podia ser. Tentei, mas não dava mais para ficar desacordada. Eu acordei:
– Como é¿ O que você quer dizer com isso¿
– Não quero que você se assuste. E isso tudo talvez não seja tão grave, também não tem que ser uma coisa ruim.
– Pai, do que é que você está falando¿
– Calma, a gente vai conversar, eu vou explicar.
– Eu não quero conversa, eu quero a verdade. Você vai me dizer agora o que isso quer dizer. Você não pode fazer isso comigo. Você tem a obrigação de me dizer agora o que está acontecendo.
– Por favor, espere um minuto...
– Não, não, não, não. - Eu me levantei, erguida pela força do desespero, munida com minhas palavras embaralhadas apertadas sob meus dedos, esmagadas contra a palma da minha mão. – Eu não tenho que esperar mais um segundo. Nem que eu quisesse, eu não conseguiria mais. Você vai ter que me falar tudo e vai fazer isso agora.
–  Clarissa, eu.... Eu não sei mais o que dizer, eu já disse tudo o que eu sou capaz de dizer.
– Não, você não disse! – Explodiu minha mãe, em prantos. Meu pai engoliu, em espanto. Ele travou.
Ele travou o corpo. Meio cambaleando, meio reticente, ele fez o esforço de racionalizar o seu estado no tempo e espaço. No seu rosto, eu vi, os seus nós se afrouxavam, mas ele não os permitia desatar. Nós três pairamos no silêncio por um instante. Ela o rompeu:

– César! – Chamou por ele, numa vontade descontrolada de exterminar tudo de uma vez. 
Não adiantava. Ou aquela não era a hora dele. Se era, ele não deixaria que fosse. Meu pai precisou de mais alguns segundos para conseguir desfazer completamente o personagem que ancorou em si por tantos anos. Por tanto tempo ele foi o tirano, nos submetendo a sua inquisição sufocante. Antes éramos nós sob os holofotes da sua sentença implacável. Tomar o nosso lugar não era simples. Eu entendi, ele queria adiar a sua redenção. Quanto a mim, eu não via a hora, mas não me preocupei em acelerar. Eu havia me duplicado, era como me sentia. Inexplicável, a não ser pela sensação de separação. Como duas partes. Eu estava alerta e dispersa. Um ânimo se remexia dentro de mim e meu corpo se embaraçava tamanha minha sede de sangue, de vingança. Mas a despeito da ira, minha mente não queria nada além de sumir no embaraço e flutuar. Duas partes de mim. Algo tipo um surto súbito de loucura, na hora mais inoportuna. Algo começou a mudar. Acho que uma das partes estava se despedindo de mim mesma, eu só não sabia qual. Uma delas segurava contra o peito o temor da grandiosidade da estupidez da vida adulta que borbulhava diante de seus olhos. Ela me tirou daquele lugar e me deixou observando a confusão ao meu redor. Eu vi pouco, mas vi o suficiente. Minha mãe se tremia por inteiro, mas não hesitava. Já meu pai se mantinha frio, congelado no tempo, insistindo em estampar no rosto o que havia sobrado do seu personagem ditador. Não era escárnio dele, era medo. Para delírio de todos, foi a certeza da minha mãe – coisa que eu jamais havia presenciado na vida –, que não deu brechas. Ele bem que não queria, mas a queda já estava à vista. A hora chegou e ele se desfez.

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