terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Pág. XIX à XIV

             Este Blog é uma plataforma de divulgação do livro autoral AS LEIS DA PIZZA 

Meus leves traços de crueldade não eram um retrato de algum distúrbio psicológico meu, mas sim o inevitável efeito do que eu acreditava ser um distúrbio dele; fadiga, cansaço e exaustão. Por negação, talvez, eu já cheguei a sentir pena. Eu senti o arrependimento mais sombrio que já vivi quando pensei no quão idiota fui antes de perceber o que acontecia. Ele não me enganava mais. Não cabia mais em mim nada que se assemelhasse a misericórdia ou compaixão. Vivia diante de cenas inexplicáveis como esta e fazia um esforço desumano para compreender o que se passava com ele, mas eu sempre entendia tudo errado. Eu pensava que nada mais poderia explicar sua condição, ou me convencer de que havia uma explicação para o jeito dele, a não ser concluir que meu pai era um homem macho, porém muito dramático. Um homem sério, intransigente, teimoso, prepotente, autoritário – como uma diva. Talvez fosse esse o plano dele. Contudo, como tudo que é perecível, o seu plano expirou. Ele mesmo cavou a própria cova. Ele foi longe demais e permitiu que eu desvendasse a trama da sua armação. Meses antes deste jantar eu notei pela primeira vez que havia um padrão nos surtos dele. E para melhor elucida-los, vou contar uma estória:

Era verão. Fazia calor e eu estava na sala, sentada na janela que dá para o quintal. Eu estava quieta e reflexiva, e ele sabia que eu jamais poderia fingir estar atarefada. Eu logo soube; era uma cilada. Mesmo eu estando indefesa ele seguiu em frente e cumpriu o ritual. Meu ódio embaçou o vidro da janela e eu preferi abri-la para que minha ira pudesse ter alguma passagem para fora do meu lar. Ele pousou junto a janela, cruzou os braços, esperou que eu o olhasse e então me acusou de ter largado um pé de meia usada no chão da sala. Enquanto me interrogava ele descaradamente trocava olhares com a meia desmaiada no chão, insinuando saber de alguma ligação entre nós duas. Alguém otimista ou de bom coração se perguntaria se ele não poderia ter por acaso se enganado e ter deveras achado que a tal meia pertencia a mim. Impossível, apenas impossível. Para que uma meia gigantesca como aquela me pertencesse eu teria que estar secretamente sofrendo de algum mal que provavelmente envolveria um inchaço exorbitante dos pés; ou então eu poderia estar secretamente abrigando algum homem desleixado de baixo do nosso teto, corajoso o suficiente para deixar vestígios pelo caminho sem se importar; ou eu estaria secretamente colecionando meias usadas de homens aleatórios – ou não –, e por algum motivo não fui capaz de guardá-la em seu devido lugar; ou então eu estaria metida com algum esquema muito sórdido de ressuscitação das polainas, mas creio que se fosse o caso eu tomaria todos as precauções para evitar essa revelação. Mas, para quem quer que esteja procurando os culpados de qualquer um destes crimes, continuem as buscas, pois não fui eu! Para o crime da meia no chão eu também estava longe de ser culpada, já que a meia era dele. O que nos leva a concluir que tudo se tratava de uma cena deplorável fundida a um caso de pura falta de caráter
Não por menos, foi a partir daquele dia que eu passei a resgatar cada etapa do ritual - da pausa às palavras infinitas –, e a analisar todos os que vieram a seguir, na tentativa de encontrar alguma pista que me alertasse e me permitisse estar preparada para este tipo de acusação. Se querem saber, eu encontrei. Acho que, de tão desconcertada, eu nunca antes fui capaz de enxergar com clareza. Acho até que antes eu não sabia direito o que eu procurava, logo não sabia direito o que questionar. Após traçar o perfil de meu pai com louvor eu quis ir mais além e, na verdade, eu apenas tive que juntar as peças que eu já havia separado. Eu passei muito tempo revoltada com como ele se safava de todas as mancadas e com como me chocava a falta de caráter dele diante de injustiças que ele mesmo fazia. Logo, enxergar minha teoria não fora tão complicado. Estava pronta, escondida em algum lugar. Eu demorei, mas achei. O grande segredo é que a ilustre sabedoria que ele tanto ostentava se resumia a um reles truque para desviar nossa atenção do motivo real por trás do drama. Ele simplesmente queria ter razão. O ritual em si não tinha a menor importância para ele e, no fundo, só incomodava mesmo a nós duas. É tão simples que chega a ser absurdo.

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